quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Sao fases
Sao fases como o dia e a noite, como o Inverno e o Verao. Mas tarda o Verao e o Inverno bate a porta todas as semanas. Os raios de luz, meros reflexos no vidro que se esbatem ao entrarem em minha casa, dao forma as poeiras que bailam e pairam sem outro sentido que a vontade do sol, esse breve sol de Inverno. Pelo menos ha sol. Sao fases. E esbate-se a luz e vem a noite, uma nova fase, uma nova fase de lua nova. Esta noite não ha luar, dizia o titulo de um livro, mas esta noite ha estrelas que deixam no meu olhar o brilho da fase seguinte. Que seja melhor… Mas e sao so duas as fases? So preto e branco, so nu e cru? Hao-de existir intermedios! Nuances, cosidos e assados, vestidos elegantemente em trajes do antigamente, puxados em carrocas fechadas conduzidas por um senhor vestido de negro e de cartola encabecada. Mas e quem vai la dentro? Vai o rei? Não, que a carroça nao tem brocados de ouro. E, dai talvez va o rei, o rei leitor que me leva a balancar uma venia de esperanca pelo meio-tom, pelo meio-termo, pela sua autorizacao para subir os cinquenta mil degraus ate ver o verao, por fim chegar, e se for caso disso, me de alento para ainda chegar a tempo de ver a Primavera surgir num botao de flor temerosamente revelado, e aí outra fase, que nao as habituais duas, monotonas e distantes. Nao deixem que se acabe a Primavera! Nao a tomem num so sol quente de Verao! Nao deixem o Outono so vir no Inverno, que as folhas pardas e douradas merecem ter o seu tempo, o seu tempo so para si, para o seu espectaculo a solo! Deixem a vida ter quatro estacoes. Nao levem as criancas, nem os jovens, nem os adultos embora! Deixem-nos chegar a estacao final. E as quatro menos um quarto chega o proximo comboio, mas nao vai a lado nenhum com as criancas, os jovens e os adultos, leva os seniores a dar um passeio pela meia estacao, um reviver de outros tempos com novas historias para contar. Nada de luzes brancas e lucidas ao fundo do tunel escuro da morte! Um reviver real, nao lembrado; real, digno de principes, duques e condessas, de beijos trocados num qualquer apeadeiro na promessa de um outro beijo na manha do devir. E os nossos avos la vao mas voltam, cheios de pequenas flores brancas nos cabelos, quais puros incautos que sao, e trazem tambem pedacos de uma terra nova onde ha diferentes sentimentos dos quais nos habituamos a viver, todos humanos, feitos da mesma materia e das mesmas lágrimas de sal. Trazem as luas como recordacao e as cantigas e as historias a volta do lume nos sacos de pano quentes como o pao, e nos devolvemos-lhes o espanto que merece a ruga da sabedoria e o franzir do conhecimento de quem ja viu muitas guerras e que sabe que o Homem nao muda, mas que pode mudar, tal como as poucas fases em que vivia há linhas atras, ha quinhentas e vinte palavras atras. Gracas ao rei que vai na carruagem, aos cinquenta mil degraus que subi, e as geracoes que vivi e irei viver, conheco agora uma vida a cores, um banquete, talvez uma viagem de quatro estacoes. Ate que um dia o sol se apague e nao haja lua, nem estrelas, nem pao quente, nem lume para me aquecer.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário